O OLHO DE HÓRUS
Dr. Valenio Pérez França (Centro da Memória da Medicina UFMG)
A luta encarniçada já se prolongava demasiado, sem que nenhum dos dois exércitos vislumbrasse a vitória. Por fim os dois lados decidem reunir o máximo de suas forças para um último e decisivo enfrentamento. O local: Edfu, cidade a margem esquerda do Nilo, ao sul do Alto Egito; a data: uma incógnita. O ensurdecedor barulho da batalha e os gritos de guerra ecoam até aos céus. Hórus transforma-se em um falcão e alça vôo sobre o campo de contenda; procura a Seth, seu tio e chefe dos inimigos. Perscruta do alto com seus poderosos olhos a ver se encontra o odiado e ruivo desafeto. Reconhece-o travestido de hipopótamo, e rápido cai-lhe sobre o couro duro, onde crava suas garras de aço. Seth desvencilha-se do perseguidor transformando-se em uma gazela que foge o mais rápido que pode. Mas o falcão novamente o encontra e a luta reinicia mais feroz que nunca. Seth arranca o olho esquerdo de Hórus, que por sua vez consegue cortar os testículos do adversário. Do alto, os deuses que acompanhavam a luta sem interferir, cansando-se do combate sem fim, resolvem intermediar a paz. Convocam os dois contendores a uma assembléia divina, onde Toth (que a rogo de Ísis restaurara ao filho o lesado olho) é chamado como juiz. Ele dá ganho de causa ao filho de Osíris, e Hórus une assim todo o Egito sob um só cetro, passando a governar com sabedoria e compaixão. A partir de então os seus descendentes, os faraós, reinarão absolutos nestas terras por mais de 3000 anos.
Hórus, o deus falcão, irá se tornar mais tarde o deus da arte de curar; e o “Olho de Hórus”, um amuleto protetor muito utilizado cuja ação terapêutica derivava da interpretação da luta mitológica acima, de uma certa maneira chegou até nossos dias de uma forma insuspeitada para muitos de nós médicos. O estilizado olho do falcão transformou-se no símbolo da intenção da medicina – restaurar a saúde. Assim como o olho e a visão de Hórus foram restaurados, assim fazem os médicos, recuperando a saúde dos pacientes. Galeno (130-200 a.C), para impressionar os clientes, recomendava aos médicos o uso de símbolos egípcios nas suas receitas, entre eles o “Olho de Hórus”. A principio desenhavam-se dois olhos espelhados, um frente ao outro; a estilização do símbolo transformou o desenho em dois “Rs” romanos de costas um para o outro, e mais tarde em um só “R”, com o significado de “tome isto” (tal medicamento). Com o tempo o R torna-se uma espécie de Z ( ) lembrando Zeus/Júpiter, e posteriormente em uma mistura de R e Z, com um “x” cortando a perna dianteira do R ( ), símbolo hoje universal de “Receita médica”.
Além disso, o olho refeito de Hórus, traduzido pela palavra “Uadjat” cujo significado é “o olho inteiro” (ileso, são), passou a servir como um símbolo taquigráfico de medida farmacêutica, com suas partes representando frações múltiplas de 1/64. No antigo Egito, misturas das mais diversas substâncias para o preparo de medicamentos deveriam ser compostas habitualmente por 64 frações, ou 64 partes do Uadjat, o que completaria o olho inteiro. Metaforicamente, assim como o Olho de Hórus recomposto parte por parte recobrou a sua função, tal triaga também teria o poder de restaurar a saúde de quem a usasse. Mas, caso não se formulasse o remédio com todas as 64 frações (refazendo assim o Uadjat = o Olho de Hórus), o que faltasse deveria ser necessariamente completado com a ajuda e invocação da ação mágica do deus Toth - conceito que corresponde nada mais nada menos que ao nosso q.s.p. (quantum satis para = o quanto basta para completar o total), utilizado em quase toda composição medicamentosa atual.
È no mínimo curioso constatarmos que a medicina ocidental tecnologicamente tão avançada e ciosa de suas conquistas, ainda conserve até hoje certos símbolos e conceitos, ecos de uma época lendária da ciência médica.
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